Plantam prédios, cortam árvores e chamam de progresso

 

Imagem IA

Nos últimos anos, o que se vê nas cidades é um fenômeno preocupante: cortam-se árvores para plantar prédios. O mais irônico é que muitos desses empreendimentos recebem nomes que remetem à natureza: Jardim dos Ipês, Condado das Palmeiras, Bosque das Acácias. Na prática, porém, de bosque não há nada. Quando muito, um pouco de grama e alguns coqueiros isolados, que pouco ou nada contribuem para o equilíbrio ambiental.

Se ao menos esses condomínios preservassem ou reintroduzissem as espécies que inspiram seus nomes, o impacto seria menor. Mas onde está o reflorestamento urbano? Onde estão as leis que exigem compensação ambiental proporcional à destruição causada? Por que não há a obrigatoriedade de reservar áreas para pequenas florestas urbanas dentro dos próprios empreendimento?

A cidade cresce de forma acelerada. Prédios, shoppings, mercados, indústrias surgem a cada esquina, quase sempre à custa do corte indiscriminado de árvores. No entanto, raramente se fala, ou se exige, uma compensação ambiental real. O meio ambiente é afetado diretamente, e as consequências estão cada vez mais evidentes: aumento da temperatura, ilhas de calor, ar mais seco e pior qualidade de vida.

Muito se discursa sobre preservação ambiental. Levantam-se bandeiras, muitas vezes por ideologia ou disputa política, mas ações efetivas são raras. O discurso não se traduz em prática. E então, quando chegam as ondas de calor extremo, todos reclamam, como se fosse um fenômeno inesperado, e não o resultado direto de escolhas equivocadas.

Há exemplos claros dessa contradição no espaço urbano. O Calçadão de Campo Grande, por exemplo, foi concebido com um projeto inspirado em Burle Marx, que prioriza integração entre paisagismo, conforto térmico e estética. No entanto, falta fiscalização. Ambulantes prendem mercadorias nas árvores, ocupam canteiros, descaracterizam o espaço e comprometem sua função principal: embelezar, preservar e amenizar a temperatura do local.

Situação semelhante ocorre no Calçadão de Bangu. O projeto original previa cobertura para os transeuntes e até um chafariz, pensado para refrescar o ambiente. Hoje, o espaço se transformou em uma espécie de feira permanente. A sombra foi substituída por barracas, a circulação é dificultada e, em alguns pontos, sequer é possível atravessar a rua devido a cordas, madeiras, sujeira e ocupações irregulares.

O problema não é o comércio popular, mas a ausência de organização, planejamento e fiscalização. Quando tudo é permitido, o espaço público perde sua função social, ambiental e urbana.

Preservar o meio ambiente não é apenas plantar uma árvore simbólica ou dar nomes verdes a empreendimentos de concreto. É planejar o crescimento urbano com responsabilidade, exigir compensações ambientais reais, proteger o que ainda existe e cuidar dos espaços públicos que já foram pensados para melhorar a vida das pessoas.

Caso contrário, continuaremos plantando prédios, cortando árvores e colhendo calor, caos e descaso.

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